23 de maio de 2016

Alimentação de prova em 3 partes, Parte 3: pós-prova

Esta é a parte melhor, a nível de alimentação. Com os músculos cansados após as provas e/ou treinos, em perigo de catabolismo (quando o corpo começa a usar o músculo para as necessidades energéticas) e com as mazelas próprias do exercício, a recuperação exige a ingestão de doses generosas de alimentos.

Logo depois de terminar, o meu ritual começa com fruta, normalmente banana e laranja, para reposição imediata do glicogénio, o que vai evitar precisamente a quebra muscular. Incluo aqui também os preciosos e sempre disponíveis frutos secos (coco, sultanas, nozes, amêndoas, cajú,etc...) e, para que a recuperação muscular se inicie, uso então um dos poucos produtos de suplementação que entram na minha "dieta": proteína de origem vegetal. Basta fazer um batido e consigo uma dose de aminoácidos importante para que o organismo entre em regeneração. Aquela que mais consumo é a Vegan Blend da Myprotein (que também utilizo para as barritas proteicas). Apesar de conter alguns aditivos foi, até hoje, a que mais me satisfez, em preço/qualidade. A mistura de proteínas de ervilha, arroz integral e cânhamo é interessante, uma vez que abrange todas as necessidades de aminoácidos, em proporções bastante correctas, e o sabor suave a chocolate torna-a uma alternativa apetecível.

Depois do banho, a refeição principal torna-se o meu foco. Nesta altura, estou à vontade para me deliciar com um dos meus pratos favoritos: massa integral com lentilhas e legumes. Dependendo da situação, já comi quente, acabada de fazer, fria, levada numa lancheira, e, seja de que forma for, é o que me reconforta mais após horas e horas de prova ou no fim dum treino ultra-longo.

Fusili com lentilhas e legumes
Uma vez que este prato é constituído por hidratos de carbono de absorção lenta (massa integral e lentilhas) e proteínas (lentilhas) numa dose ponderada, mais as vitaminas e sais minerais dos legumes e verduras, todos os elementos necessários para que o corpo entre em recuperação estão incluídos e posso permitir-me abusar um pouco na dose...

10 de maio de 2016

Alimentação de prova em 3 partes, Parte 2: durante a prova


Na sequência do artigo anterior, sobre o Peneda-Gerês Trail Adventure, eis que surge uma boa altura para escrever sobre a alimentação que faço durante as provas.

Para começar, tudo depende da distância e do tempo previsto de prova. Normalmente, costumo separar os eventos entre aqueles que duram menos de 3 horas e mais de 3 horas. Nas primeiras, o normal é ter pelo menos um abastecimento, no qual como frutas como laranja, melancia e melão, os quais complemento com uma barrita e alguns frutos secos, sensivelmente a cada hora de prova.

Abastecimento no Peneda-Gerês Trail Adventure
Para as mais longas, aplico o mesmo princípio, mas a ingestão tem que ser mais completa, pelo que a cada 3 horas, uso uma barrita proteica, que ajuda a regenerar os músculos, e uso os postos de abastecimento como referência para a ingestão de diversos tipos de alimentos complementares, quando os existem, desde pão (escuro), marmelada, chocolate (negro), frutos secos, normalmente amendoins ou manteiga de amendoim, passas e nozes, tomate com sal, além das frutas já referidas, e outras coisas que não fazem parte do meu dia-a-dia mas que trazem alguma energia rápida, como batatas fritas e bebidas isotónicas. A banana também costuma existir nos abastecimentos mas as minhas primeiras experiências no trail com esta fruta não foram boas e acabei por estabelecer uma relação entre as cãibras e a sua ingestão. Ainda que pareça estranho, a verdade é que aconteceu várias vezes e o que penso é que tenha a ver com uma questão digestiva. Um destes dias volto a fazer a experiência, para ver se essa relação se mantém ou se é apenas um factor psicológico.

Em provas acima dos 50km existe, muitas vezes, um abastecimento maior, com sopa e outros alimentos quentes. Se for um creme de legumes, como uma tigela, e isso ajuda a confortar o estômago. 

De qualquer forma, aquilo que tento seguir cinge-se a ingerir cerca de 50-60g de hidratos de carbono, com uma parte de absorção rápida e outra lenta, a cada hora, mantendo o estômago ocupado mas sem o encher demasiado. Comer muito obriga o sangue a fluir para o sistema digestivo e isso pode ser causa de cãibras e cansaço. Entre as barritas e os frutos secos que andam comigo e o restante que como nos abastecimentos, posso dizer que nunca tive fome nem qualquer tipo de problema digestivo nas provas.

Além dos alimentos, é especialmente importante manter a hidratação. Para esse fim, levo sempre comigo uma garrafa com água e outra com pastilhas de electrólitos, que auxiliam na reposição de sais. Em provas em que existam bebidas quentes, normalmente bebo um chá ou, mais raramente, café.

Tudo isto requer alguma adaptação para que o organismo se regule para este tipo de ingestão contínua, em esforço, e os treinos médios e longos (entre 3h a 8h) são essenciais na preparação. Criar rotinas e perceber o que o corpo exige de nós leva o seu tempo mas os benefícios no dia da prova podem fazer a diferença entre passar bem ou sofrer desnecessariamente.

5 de maio de 2016

Peneda-Gerês Trail Adventure, 3 dias

Depois de alguns meses de preparação, chegou a tão esperada primeira grande prova do ano. Uma aventura por etapas, com grande desnível, dificuldade elevada e em equipa, que iria colocar à prova quer os treinos efectuados, quer o regime alimentar.

Peneda-Gerês Trail Adventure - 3 dias
Neste tipo de eventos é importante recuperar bem dum dia para o outro e, neste caso, isso iria ser preponderante, sobretudo do primeiro para o segundo dia, em que as exigências das etapas seria maior.

Tudo preparado, com um bom jantar pré-prova e um pequeno-almoço normal para este tipo de dias, material organizado e distribuído pelos 3 dias, o descanso possível, devido à ansiedade e a uma cama desconhecida, era tempo de dar início à prova.

O primeiro dia começou com uma viagem de quase duas horas de autocarro para o local de partida e seria necessário ter em atenção a alimentação. E aí, começaram as falhas da organização, pois não disponibilizaram nenhum abastecimento para que os atletas começassem a prova devidamente alimentados. Alguns pensaram nessa hipótese e, tal como eu, andam sempre prevenidos. Alguns frutos secos e uma barrita foram a minha solução. Dada a partida, o primeiro abastecimento situava-se a 13km, cerca de 2 horas. Nesse posto, a variedade era grande, com broa de milho e centeio, marmelada, laranja (o que eu comi), mais bananas, mel, tostas, batatas fritas, coca-cola, sopa de feijão e carne e até presunto. Ainda que não coma muitas destas coisas, aquele foi um bom prenúncio para toda a prova, o que não se veio a verificar, uma vez que daí para a frente a qualidade dos abastecimentos foi diminuindo, com menos variedade e quantidade.

Muitos dirão que a competição não é para irmos comer, mas há organizações que são conhecidas por proporcionar grandes repastos e nesta prova isso não aconteceu, ao contrário do que me foram dizendo pessoas que a efectuaram noutros anos...

Em todo o caso, durante as provas tenho sempre comigo a quantidade necessária de barritas e frutos secos para me manter bem durante o tempo que espero demorar, daí que nunca me tenha faltado energia. Tudo isto também se treina e chegar ao dia do evento e estar a contar com a comida da organização, ainda para mais no meu caso, é um erro que se pode pagar caro.

De qualquer forma, esta primeira etapa foi concluída sem grande dificuldade, desfrutando ao máximo da paisagem maravilhosa e aproveitando o tempo ameno e a água dos rios, fontes e cascatas para manter uma temperatura corporal aceitável.

Fim da 1ª etapa - 36km

O pack da prova incluía 2 jantares e um almoço no último dia. Quando efectuei a inscrição perguntei sobre a possibilidade de terem refeições para mim, e apesar de a receptividade não ter sido elevada, ao fim de algum tempo, lá me disseram que iriam ser buffets de massas e saladas, pelo que fiquei sossegado. A vantagem destes jantares é poder conviver com outros corredores e poder partilhar experiências com eles.

Depois do banho tomado lá fomos jantar e qual não é o meu espanto quando noto que o buffet tinha, além duma sopa de legumes, apenas esparguete branco e carne à bolonhesa! Além disso, o restaurante era pequeno e poucos atletas lá estavam. Com a boa vontade do pessoal do restaurante, lá consegui uma salada, bem grande, por sinal, e verifiquei que colocaram também uma travessa junto à restante comida. Este não era o jantar de recuperação que esperava mas, como sou prevenido, já havia tomado um batido proteico... No final, falei com uma das responsáveis do restaurante sobre a situação e prontamente ela se disponibilizou para me preparar, na noite seguinte, um jantar mais adequado (já lá vamos...).

Nova noite dormida à pressa e o dia seguinte trouxe a etapa mais longa, com mais de 60km, e um desnível acumulado de quase 8000m. Mais uma vez, o primeiro abastecimento foi o mais vasto, com sandes (ainda que com queijo ou fiambre, pelo que me fiquei pelas laranjas...), ao contrário dos seguintes, que cada vez tinham menos quantidade e qualidade. Podia isto ser por virmos bem atrás de todos, o que não era manifestamente o caso, pois estivemos sempre colocados para cima do meio do pelotão. Ainda assim, o dia foi passando sem grandes percalços, apenas algumas mazelas no meu parceiro, que ele foi ultrapassando de forma fantástica, acompanhando sempre o ritmo que íamos impondo. Sensivelmente a meio, a Sofia lá estava com o meu batido de proteína, para dar ao corpo uma dose extra de nutrientes que ajudam a recuperar. Também fui fazendo uma boa gestão das barritas, para compensar os gastos de energia, complementando com frutos secos, laranjas, marmelada e algumas batatas fritas (apesar da gordura, o sal que contêm ajuda a repor alguns minerais), além da minha bebida de electrólitos. Ao final de quase 12 horas, a chegada à meta, com a sensação de que tínhamos dado o nosso melhor, com amigos à espera, valeu bem a pena.

Paragem para abastecimento durante a 2ª etapa - 62km

Ao segundo jantar, tal como prometido, uma refeição especial tinha sido preparada. Nesse dia, decidimos ir todos e festejar, e também a Sofia teve direito ao mesmo que eu: feijão verde, cogumelos, salada variada, grêlos salteados, feijão preto e arroz!! Com uma sopa de legumes para começar e uma maçã para terminar, esta foi a melhor surpresa dos 3 dias e muito agradeço a todo o pessoal do Restaurante Pedra Bela. A minha única pergunta vai para a organização: será que não podiam ter sido vocês a proporcionar isto, sem ter que ser eu a pedir? No meu ponto de vista, o valor que se paga justifica um tratamento personalizado, não só para mim, mas para que todos se possam sentir acarinhados.

Para terminar, o último dia trouxe algo diferente, com uma etapa de consagração, bem rápida, com uma subida difícil e uma descida rápida para a vila do Gerês. 12km para finalizar a festa. Para o almoço convívio deste dia, nem valia a pena verificar em que consistia, pois já me tinham dito: sandes de carne de porco e sopa de carne... Antes de deixarmos a apartamento para a entrega de prémios, fiz o meu próprio almoço, sandes de pasta de cenoura e amêndoa, abacate, grêlos, uma empada de legumes, sopa, fruta e um batido de proteína.

Chegada da 3ª etapa - 12km e troféus de finisher


Em jeito de avaliação, considero que o evento teve tantos pontos positivos como negativos (a condizer com a altimetria), mas considero-a uma prova de referência para os amantes de desportos na natureza.

Quanto a mim, senti-me bem durante os 3 dias, geri com eficácia o meu esforço, consegui fazer as 3 etapas dentro do tempo esperado, e terminei com a sensação de que podia continuar.

Por tudo isto, não posso deixar de mencionar a ajuda preciosa da Sofia, da presença sempre alegre da minha pequena corredora, que cada vez mais mostra que o bichinho parece querer atacar, da Raquel, que lá estava no dia mais duro, a dar-nos apoio com a sua experiência, do Mário e da Sandra, por estarem lá para nós, e, claro, do meu parceiro de aventura, que se mostrou um guerreiro, nos momentos mais difíceis.

Neste momento já trabalho para o próximo objectivo mas este vai ficar bem registado na memória!

10 de abril de 2016

Receitas pré-prova


Na sequência do último artigo, e para responder a alguns pedidos, resolvi fazer as duas receitas de que falo, neste fim-de-semana.

De realçar que ambas são adaptáveis, desde os ingredientes aos métodos de confecção. Esta é a minha fórmula mas fica ao gosto e critério de cada um escolher os ingredientes que mais gosta e que resultem melhor. Cá em casa, por exemplo, a Sofia gosta da aveia quente, pelo que, hoje, o meu pequeno-almoço foi frio e o dela, com praticamente os mesmos ingredientes, foi feito no fogão.

Posto isto, começamos pelo jantar:

Ingredientes (por pessoa)

75gr de bulgur
75gr de batata-doce
75gr de grão-de-bico cozido
Espinafres e grêlos de couve a gosto
2 dentes de alho
Azeite, sal, açafrão e pimenta q.b.

Primeiramente, pico bem os alhos e coloco metade numa caçarola com um fio de azeite. Vai a saltear um pouco e adiciono o bulgur, uma pitada de sal e outra de açafrão. Depois de saltear novamente, adiciono o dobro de água a ferver e deixo cozinhar, em lume brando, até ficar sem água. Desligo e deixo descansar.

Depois de escolhidos os espinafres e os grêlos, coloco numa panela com água a ferver para escaldar uns minutos. Escorro e adiciono na panela um fio de azeite, o outro dente de alho, uma pitada de sal e pimenta moída na hora. Salteio em lume médio durante alguns minutos, mexendo sempre para que as verduras absorvam o azeite.

Enquanto isso, corto a batata-doce em cubinhos, levo uma frigideira com um fio de azeite ao lume e coloco a saltear com o grão. Quando estiverem dourados, estão prontos.

Junto tudo num prato fundo, dividindo o prato em 3 partes iguais.

Bulgur, grão-de-bico, batata-doce, espinafres e grêlos
Informação nutricional (por pessoa)
Energia: 1594kJ / 381kcal
Proteína: 14,5gr
Hidratos de carbono: 42gr, dos quais açucares: 4,4gr
Gorduras: 19,7gr
Fibras: 16,7gr
Sódio: 736mg
Potássio: 1201mg

Para o pequeno-almoço, a preparação faz-se na véspera.

Ingredientes (por pessoa)
40gr de aveia
20gr de sementes (mistura de abóbora, girassol, chia e cânhamo)
30gr de frutas secas (1 alperce, 2 figos e 1 tâmara)
1 iogurte de soja natural
Água q.b.
1 banana da Madeira
1 laranja

Coloco e misturo todos os ingredientes, com excepção das frutas frescas, num frasco com tampa, sendo que a água é a última, apenas o suficiente para tapar o restante. Vai ao frigorífico durante a noite.
Na manhã seguinte, corto a banana, junto e misturo na preparação do dia anterior e termino com gomos de laranja.

Overnight oats
Informação nutricional (por pessoa)
Energia: 2648kJ / 633kcal
Proteína: 16,1gr
Hidratos de carbono: 105,8gr, dos quais açucares: 52gr
Gorduras: 19,1gr
Fibras: 32,8gr
Sódio: 5mg
Potássio: 1697mg

9 de abril de 2016

Alimentação de prova, em 3 partes Parte 1: pré-prova

Na preparação duma prova, os cuidados com a alimentação podem ser fulcrais para que esta corra melhor ou pior. Desde problemas intestinais que se podem evitar, até à acumulação de energia e oligoelementos que podem vir a ser úteis, as refeições que antecedem o dia de competição devem ser muito bem planeadas. No meu caso, depois de algumas experiências, cheguei a uma fórmula que respeita aqueles pressupostos.

Se durante a semana faço uma alimentação normal, dentro do que estou habituado, apenas tendo o cuidado de verificar que as reservas de glicogénio são devidamente repostas, na noite anterior obedeço quase a um ritual: uma refeição leve, que inclua bastante energia e que me permita dormir bem. A minha escolha vai para uma receita que inclui um "cereal", normalmente bulgur (grãos de trigo seco e partido), mas que pode ser substituído por quinoa ou cuscuz integral, um legume rico em hidratos de carbono de baixo índice glicémico, como a batata-doce, verduras ricas em vitaminas, sais minerais e anti-oxidantes, na forma de espinafres, agrião e/ou acelgas, por exemplo, e ainda uma leguminosa, em menor quantidade, como grão-de-bico, ervilhas ou outro feijão, para complementar o teor proteico. Esta refeição começa, como quase todas, com uma sopa de legumes e termina com uma peça de fruta. Na verdade, isto é uma refeição normal para mim, mas nessas noites é ainda mais significativa, do ponto de vista da minha preparação, até mesmo a nível mental.

Bulgur, feijão frade, batata-doce e acelgas.

Ainda na véspera, preparo tudo para o dia seguinte, incluindo o pequeno-almoço. A minha preferência vai para overnight oats, cheio de energia e pronto a comer. Basta juntar flocos de aveia integral com sementes, frutos secos, iogurte de soja natural ou sumo de fruta, um pouco de água, e deixar tapado num frasco no frigorífico. De manhã adiciono fruta fresca, normalmente banana e outra da época (laranja na inverno, morango na primavera, pêssego no verão, figo no outono). Além de revigorante e delicioso, está carregado dos nutrientes essenciais para que o trabalho físico das semanas ou meses anteriores seja potenciado ao máximo.

Na segunda parte, falarei dos meus abastecimentos favoritos durante as provas.

13 de fevereiro de 2016

Alimentação alcalinizante

Em semana de aumento de carga, com quase o dobro dos quilómetros das anteriores, e com algumas actividades puxadas, a recuperação entre treinos é ainda mais importante. A alimentação é essencial e a ingestão de alimentos alcalinizantes é a minha prioridade. Muitas frutas e verduras, cereal quanto baste para a reposição energética e proteína de base vegetal fazem o trabalho. Além de ajudar o músculo a regenerar de forma mais eficaz também permitem um descanso de qualidade e evitam gastos desnecessários de energia, potenciando os ganhos na forma física.

Alimentos acidificantes vs alcalinizantes

Hoje foi dia de treino longo de corta-mato, no pinhal entre Cortegaça e Ovar. Amanhã será a primeira prova do ano, para fazer com a minha cara-metade, que tem andado tão focada quanto eu. Será um dia dos namorados diferente, com muita chuva e sorrisos!

STTL 27km

2 de fevereiro de 2016

Scott Jurek, lenda viva

No meu recente percurso enquanto "ultra-corredor" há, certamente, algumas inspirações. Ainda que hoje em dia seja fácil acompanhar e deixarmo-nos inspirar pelas novas gerações de super-atletas e os seus fenomenais sucessos, aqueles que mais me motivam são alguns dos que começaram a fazer deste desporto o que ele é. Dean Karnazes, Bruno Brunod, Ann Trason e Scott Jurek mantêm-se as minhas maiores referências, sendo que este último teve um papel muito importante para mim, nos últimos anos.

Numa altura em que a modalidade começava a tornar-se conhecida, Scott Jurek foi o primeiro a torná-la atractiva. Com vitórias consecutivas nas provas mais exigentes, como a Western States, Spartathlon e Badwater, entre outros êxitos, tornou-se o corredor mais famoso do início do século. No ano passado, Scott bateu mais um recorde, ao tornar-se o mais rápido a cruzar o Appalachian Trail, nos EUA, em autonomia. Mais do que um grande atleta, o amercicano é um embaixador do desporto, conhecido por ficar na linha de chegada a aplaudir até que o último atleta cruze a meta.

Imagem da página scottjurek.com

Em 1999, Scott Jurek, que já era vegetariano desde 1997, decidiu alterar a sua alimentação, tornado-se vegan, ao verificar que os seus pacientes de fisioterapia adoeciam devido a uma dieta com produtos altamente processados e de baixa qualidade nutricional. Apenas 5 meses depois, conseguia a primeira de 7 vitórias consecutivas na Western States (166km). 

Todas as suas conquistas foram obtidas, segundo Scott Jurek, devido a uma nutrição 100% de origem vegetal. Mais resistência, recuperação mais rápida e eficaz e uma saúde, em geral, superior, são as observações que Scott constata com a sua alimentação. No seu livro "Eat & Run", Jurek mostra os benefícios que este estilo de vida, quando bem planeado, pode trazer para o rendimento desportivo e não só. Cheio de histórias de vida, com descrições dos seus momentos mais empolgantes nos trilhos, mas também com ciência, conhecimento e experiência, este é um livro a ler por todos os que querem estar constantemente a melhorar.

O livro que mais me ajudou quando fiz a transição

A sua crença mais inspiradora, para mim, é a de que todos nós conseguimos correr uma "ultra", assim como todos conseguimos aceder à capacidade inata do corpo para se curar. Tal como ele fez comigo e como tem feito com milhares de pessoas pelo mundo fora, também eu sinto que a maior vitória é quando ajudamos alguém a melhorar a sua qualidade de vida, através da dieta e do exercício.

19 de janeiro de 2016

Barras energéticas raw

Quando fiz a transição para uma alimentação de origem apenas vegetal, fui tomando consciência e prestando mais atenção aos ingredientes das barras e géis que consumia durante as provas. Apesar de existirem sempre muitas frutas e frutos secos nos abastecimentos, é adequado termos a nossa própria alimentação, para precaver qualquer eventualidade. Além disso, em treinos longos (no meu caso, acima de 2 horas) é recomendado ter alimentos sólidos, assim como água e/ou electrólitos e géis.

A marca que costumava usar apenas tinha mel na constituição da sua barra. De resto, era simplesmente uma mistura de frutas desidratadas e aveia.

Vai daí que resolvi fazer as minhas próprias barras, inspiradas noutras receitas mas com o meu toque pessoal.


Muitos dirão que tem demasiados ingredientes mas, para mim, fazia sentido conseguir abranger o máximo de diferentes micro-nutrientes, como vitaminas e sais minerais, e ainda assim fornecer a energia necessária para treinos e provas de resistência, ajudando o corpo a regenerar-se continuamente.

Com o tempo tenho experimentado com diferentes alimentos, sabores e texturas, mantendo, no entanto, a base. Cada um pode adaptar a receita aos seus gostos e necessidades.

Ingredientes:
200g de flocos de aveia (pode ser outro cereal em flocos ou em farinha);
100g de banana desidratada;
100g de figos secos;
100g de tâmaras;
50g de arandos secos;
50g de passas;
60g de mistura de sementes (chia, girassol e abóbora, neste caso);
20g de coco ralado;
50g de caju (pode ser amendoim, amêndoa, noz, avelã ou até uma mistura);
10g de guaraná em pó;
3g de sal marinho;
25g de óleo de coco;
100g de adoçante (geleia de arroz, agave, xarope de ácer...) - opcional (eu uso como elemento de ligação entre todos os elementos sólidos e para energia rápida).

Colocar tudo no processador e triturar até começar a formar uma bola e todos os ingredientes estarem com um tamanho homogéneo.
Tirar do processador para uma folha de papel vegetal e moldar com as mãos até formar uma bola compacta. Achatar ligeiramente e, com a ajuda de um rolo de cozinha estender até cerca de 5mm de espessura, ou a gosto. Deixar a repousar no frigorífico para ganhar consistência, pelo menos 8 horas. Cortar em doses individuais e envolver em película aderente ou ensacar e selar, com a ajuda de uma máquina de ensacar. Eu costumo mantê-las no frigorífico depois de ensacar, até ao dia de consumir. Aguentam-se bastante tempo, mesmo depois de saírem do frio. Costuma render cerca de 20 barras.

Valores nutricionais por barra: Energia 150kcal, hidratos de carbono 23,7g, das quais 11,6g de açucares, lípidos 4,7g, proteínas 3,2g, fibras 3,2g, sódio 121mg. Nota: Valores aproximados.

Recomendo que usem o máximo de produtos com origem biológica e integrais. De resto, deixem a imaginação e o voso paladar trabalhar a vosso favor.

Caso desejem, podem partilhar as vossas experiências e dicas, assim podemos todos melhorar!

13 de janeiro de 2016

Variedade, cor e sabor - a base alimentar vegan

Para se manter uma dieta vegan saudável, há que, como em qualquer regime alimentar, obter os nutrientes necessários.

Muitos se têm dedicado a adaptar a pirâmide alimentar existente mas não é fácil chegar a consenso. A minha experiência diz-me que o ideal é variar o mais possível, por forma a cobrir o máximo dos elementos essenciais.

Recentemente, foi criada, pela organização norte-amercicana Physicians Committee for Responsible Medicine, uma nova forma, mais simples, de agregar os grupos alimentares iniciais. Daqui, saiu o The Power Plate, que é, realmente, uma forma eficaz de passar a mensagem.

The Power Plate

A minha inspiração para criar o logótipo do blog foram precisamente as relações entre esses quatro elementos - cereais e grãos, leguminosas (maiores fontes de proteínas), frutas e vegetais - que formam a base duma alimentação saudável e rica nos nutrientes essenciais.

Ainda que esta seja a fundação para uma alimentação saudável, outros elementos deverão ser adicionados e tidos em conta, como gorduras saudáveis, oleaginosas e outros alimentos que satisfaçam todas as necessidades, especialmente, a nível de micro-nutrientes.

Alguns exemplos mais desenvolvidos da tradicional pirâmide alimentar têm surgido por estudiosos do assunto. Baseando-se na densidade nutritiva dos alimentos, estas pirâmides criam novas relações de consumo, notando-se especialmente, um aumento dos vegetais, em contraponto com a diminuição dos cereais.

Thrive, por Brendan Brazier
  
The Plant Food Pyramid, por Matthew Kenney

Seja qual for a solução, as vantagens são tremendas. Aumento da energia disponível, ganhos a nível muscular, articular e ósseo, tempo de recuperação inferior, diminuição de doenças, nomeadamente cardio-vasculares, obesidade, diabetes e cancro. Em suma, ter uma dieta 100% de origem vegetal pode trazer benefícios para a qualidade de vida que não são de desprezar.

Para além de tudo, uma dieta variada e rica em nutrientes, que é também saborosa, faz com que valha a pena ter feito a transição. A descoberta de novos sabores e de alimentos que ficam de fora das escolhas habituais é gratificante e dá outro colorido aos meus dias.

11 de janeiro de 2016

Movido a plantas: o início

Na vida tomamos constantemente decisões que influenciam o nosso futuro e, potencialmente, o de outros. Há precisamente um ano fiz uma escolha com implicações importantes, para a minha qualidade de vida e da minha família, para o bem-estar de todos quantos partilham o mundo connosco, e em maior harmonia com o meio-ambiente.

Num ano em que esperava desafiar os meus limites, na modalidade pela qual me apaixonei há alguns anos, o trail running, optar por alterar para um regime alimentar quase 100% de origem vegetal (ainda consumo, embora cada vez mais raramente, mel de origem biológica), foi uma aposta ganha, ainda para mais porque tive a felicidade de poder fazer a transição com a minha parceira de vida. 

Com muita auto-aprendizagem e a ajuda de uma nutricionista consegui não só manter a forma física, como ainda melhorar o rendimento e ter níveis de energia maiores, diminuindo o tempo de recuperação, ao mesmo tempo que aumentava drasticamente a carga.

Inspirado por exemplos como o ultra-campeão Scott Jurek, consegui, ao fim de 5 meses, completar a minha primeira prova de 100km (UTSM), com um tempo bem melhor que o esperado e sem cãibras ou outros problemas físicos, ao contrário do que costumava acontecer.

Entre outras aventuras, ainda fiz mais uma estreia, num evento de 24 horas, com um resultado do qual muito me orgulho, ainda para mais com uma acção solidária associada.

Mais do que uma opção alimentar, ser vegan é um estilo de vida, em que se privilegia a sustentabilidade, a compaixão e o bem-estar. Por esse motivo, sinto que é a altura de partilhar aquilo que vou aprendendo, incentivando outros a tomar pequenos passos rumo às suas próprias conquistas. Neste blog irei publicar receitas, mais ou menos orientadas para o rendimento desportivo, minhas ou de pessoas com mais conhecimentos e experiência do que eu, bem como vídeos, notícias e outras publicações pertinentes.


Complementarmente, a página de Facebook associada pretende ser mais um espaço de troca de ideias sobre assuntos relacionados com desporto e alimentação de origem 100% vegetal e é dirigida a todos quantos estejam interessados num mundo melhor e movido a plantas.